Vício por malhar
Embora seja um hábito saudável, praticar exercícios pode gerar dependência a ponto de prejudicar o corpo e a mente. Um estudo recentemente publicado em São Paulo identificou as consequências desse comportamento. Para isso, recrutaram homens adeptos de corrida e pediram que se afastassem das pistas por 15 dias. Os participantes apresentaram mudança expressiva de humor, aumento da irritabilidade, abalo na qualidade do sono, sensação de fadiga, além de maior exposição a quadros de ansiedade e depressão. A maior sacada foi constatar, através de exames de sangue, que a turma louca por corrida ficou com níveis reduzidos de uma substância chamada anandamida. Isso chamou atenção porque, durante décadas, a principal hipótese para explicar a fissura pelo esporte era o fato de ele induzir a produção de endorfina, hormônio por trás da sensação de prazer. Agora, a tal da anandamida rouba a cena.
Liberada no cérebro, ela tem efeitos analgésicos e antidepressivos. Quando se faz atividade física, os níveis dessa molécula tende a subir, pois ela ativa um circuito de recompensa cerebral. O que a pesquisa paulista sugere é que certos indivíduos têm uma falha nesse sistema e, aí, produzem pouca anandamida. Resultado, ficam vidradões em esporte para que a substância seja fabricada em um patamar suficiente para gerar bem-estar, por isso se trata de uma dependência bioquímica.
Os vestígios de que a prática esportiva saiu do controle começam de maneira sutil. De repente a pessoa sente a necessidade de malhar mais de uma vez por dia, por exemplo. A situação se torna preocupante quando o indivíduo desmarca compromissos profissionais, deixa de encontrar amigos e familiares para se dedicar aos treinos ou insiste em malhar mesmo lesionado.
Felizmente, porém, uma vez que o vício é flagrado, dá para virar o jogo. Normalmente os especialistas indicam a terapia cognitiva comportamental, já que a dependência também está ligada a dilemas emocionais e frustrações. Cabe aos treinadores, professores e personal trainers conscientizar os alunos sobre a prática adequada e equilibrada de exercícios. O repouso é tão importante quanto o período de treino. Se levar o corpo à exaustão, ou deixar de ver graça na vida além da academia, a atividade física automaticamente perde sua função clássica: a de promover, acima de tudo, o bem-estar.
Fonte: Saúde é Vital, outubro 2016.

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