Segundo o Ministério da Saúde, o paÃs é atualmente o segundo no mundo em número de casos

O Janeiro Roxo é a campanha nacional dedicada à conscientização sobre a hanseníase, uma doença caracterizada por uma infecção crônica na pele, historicamente marcada pelo estigma e pela exclusão social, mas que hoje tem tratamento, cura e controle, especialmente quando diagnosticada precocemente.
A iniciativa busca ampliar o acesso à informação, reduzir o preconceito e incentivar a população a procurar atendimento médico diante de sinais suspeitos. Apesar de ser considerada uma doença rara em muitas regiões, a hanseníase ainda acomete milhares de pessoas no Brasil.
Segundo o Ministério da Saúde, o país é atualmente o segundo no mundo em número de casos, atrás apenas da Índia. Somente em 2023, quase 23 mil novos casos foram registrados, o que mantém a doença como um desafio de saúde pública.
A contaminação pela bactéria Mycobacterium leprae, responsável pela hanseníase, pode estar associada a ambientes com baixa estrutura de saneamento básico e condições de higiene. Nem todas as pessoas expostas ao microorganismo chegam a desenvolver a doença.
Superar o estigma é fundamental
O dermatologista do Hospital Moinhos de Vento, Mauro Cunha Ramos, lembra que o preconceito em torno da hanseníase tem raízes históricas. “Pela ausência de tratamento efetivo no passado, as pessoas eram identificadas pelo Estado e levadas para leprosários”, explica. Segundo ele, esse cenário mudou com os avanços da medicina: “Isso mudou muito quando o tratamento com antibióticos começou a fazer efeito”.
Hoje, o isolamento não tem mais justificativa médica. “Não se trata de uma doença facilmente transmissível. Uma vez iniciado o tratamento, a transmissão desaparece rapidamente”, destaca o especialista. Para o médico, vencer o estigma é essencial para que as pessoas procurem ajuda sem medo.
Tratamento eficaz e cura
Atualmente, a hanseníase é tratada com poliquimioterapia, um esquema que associa antibióticos e é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Hoje o tratamento utiliza mais de um medicamento, geralmente por um período de seis meses a um ano. Em princípio, existe a cura da doença”, afirma Ramos. Ele reforça que o maior objetivo é evitar sequelas: “O mais importante é impedir as complicações, o que é possível especialmente quando a doença é tratada precocemente”.
Diagnóstico precoce evita danos permanentes
A hanseníase afeta principalmente os nervos sensitivos e motores. “O dano mais significativo ocorre nos nervos, levando à diminuição ou até à ausência de sensibilidade”, explica o dermatologista. Segundo ele, as cicatrizes e deformidades nas extremidades da pele, que se popularizaram e ajudaram a criar o estigma da doença, são mais raras e só surgem a partir de traumas repetidos causados pela falta de sensibilidade.
“A pessoa se machuca ou se queima sem sentir dor, e esse dano continuado pode levar à reabsorção das extremidades”. Em casos avançados, a recuperação é limitada. “O dano que já ocorreu é complicado de reparar”, ressalta.
Atenção aos sintomas
Os principais sinais da hanseníase são manchas esbranquiçadas na pele, associadas à alteração da sensibilidade. Em casos avançados, pode surgir formigamento e perda da sensibilidade na região. “A maioria das lesões esbranquiçadas não é hanseníase”, alerta.
“Quando a mancha vem acompanhada de formigamento ou diminuição da sensibilidade, a possibilidade deve ser considerada”, complementa. Por ser menos frequente atualmente, o diagnóstico pode atrasar. “A hanseníase exige um alto índice de suspeição. Por ser rara, muitas vezes passa despercebida”, explica.
Situação no RS e cuidado contínuo com a pele
No Rio Grande do Sul, a taxa é inferior a um caso por 100 mil habitantes ao ano, o que caracteriza a eliminação da doença do ponto de vista da saúde pública, conceito diferente de erradicação, quando a doença está 100% superada na região.
Ainda assim, o acompanhamento dermatológico é essencial, especialmente em casos de familiares ou pessoas próximas a pacientes ou ex-pacientes de hanseníase, já que “o padrão de transmissão ocorre principalmente entre pessoas que convivem no mesmo ambiente”, afirma o médico.
O Janeiro Roxo também reforça a importância do cuidado contínuo com a saúde da pele. “Consultar regularmente o dermatologista e usar protetor solar diariamente são medidas fundamentais, tanto para a detecção precoce da hanseníase quanto para a prevenção do câncer de pele”, orienta.
Fonte: Correio do Povo
Postado: Clecio Marcos Bender Ruver| Tweet |