Estresse engorda mesmo
Ele não é uma mera desculpa não. A ciência decifra novos mecanismos para elucidar por que a tensão, dia após dia, faz a barriga inflar. Viver com a cabeça quente pesa mais na balança do que se imagina. O homem deve sua sobrevivência ao estresse. Não fosse o frio na barriga e a agitação frente a uma ameaça, nossa espécie teria se tornado presa fácil lá no tempo das cavernas. Graças a uma complexa rede de reações fisiológicas, o corpo humano aprendeu a poupar energia para se precaver do pior. E, de lá para cá, esse sistema de defesa continuou tão eficiente como no passado. O problema é que o mundo mudou e o mesmo estresse que garantia um novo amanhã está nos tornando cada vez mais gordos, e doentes. Ainda no final dos anos 1980, um estudo revisou três décadas de pesquisas e diagnosticou que, nos momentos tensos, o cérebro fica realmente ávido por tudo que é calórico e gostoso ao paladar. É como ele se automedicasse à base de doces e gordurebas. E, aí, a lógica se completa: estressados, ingerimos mais tranqueiras, logo, engordamos.
O estresse é uma reação disparada pelo corpo para lidar com uma situação de ameaça, dificuldades financeiras, por exemplo. No cérebro é ativado, então, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, que secreta hormônios com o objetivo de poupar energia. Uma das ordens cerebrais é enviada à glândula suprarrenal, que fica em cima dos rins. Ela libera um monte de cortisol, hormônio que aumenta o apetite e faz o corpo estocar gordura no abdômen. A fome por guloseimas e o acúmulo inicial de gordura prejudicam o trabalho da insulina, hormônio fabricado pelo pâncreas cuja função é botar a glicose nas células. O pâncreas, então, fabrica mais insulina. Só que, a sobrecarga de insulina se soma à ação do cortisol para incentivar, de novo, o corpo a acumular mais gordura. E o metabolismo lento, por sua vez, dificulta a eliminação desse depósito indesejado.
Os efeitos visíveis desse processo todo no nosso corpo podem ser vários. As infecções são um deles, já que o estresse reduz o número de células de defesa operantes, deixando o organismo mais suscetível à invasão e à proliferação de micróbios. Doenças cardiovasculares podem ser desenvolvidas, já que a descarga de hormônios do estresse (cortisol, adrenalina e noradrenalina), faz os vasos se contraírem, elevando a pressão arterial, e pode desgovernar os batimentos cardíacos. A tensão diária também propicia um estado inflamatório, o que contribui para o agravamento de condições já marcadas por uma inflamação, como alergias, asma, artrites e doenças autoimunes. Cortisol em excesso pode comprometer as conexões e até mesmo a anatomia do cérebro, inclusive publicações recentes mostraram que moradores de cidades grandes têm mais ansiedade e esquizofrenia. Por fim, a agonia com a rotina, quando exacerbada, derruba as defesas naturais que atuam na primeira linha de frente para podar os tumores, permitindo que eles cresçam rapidamente.
As medidas antiestresse que tem aval da ciência para domar o nervosismo do dia a dia são várias: vale alongamento, ioga, caminhada, musculação, corrida, etc. Um estudo inglês concluiu que 20 minutos de atividades intensas diárias, atenuam boa parte dos malefícios do estresse. Pesquisas mostram que casais com mais intimidade são também bem menos tensos. Hormônios como a ocitocina, liberados na hora agá, bloqueiam a ação do cortisol. Realizadas com orientação, as sessões de meditação fazem o corpo produzir endorfinas e inibir a descarga de cortisol. Existem técnicas de respiração na ioga e na meditação, mas há treinos específicos. Concentre-se, inspire e expire longamente, ao menos 20 minutos por dia. Ser otimista parece conselho de autoajuda, e até é. Mas mentalizar o sucesso dos compromissos futuros consiste em uma das melhores formas de brecar a ansiedade desmedida. Por fim, um trabalho americano com 48 hipertensos estressados, os voluntários que adotaram um bicho se saíram melhor que os que só tomavam remédio. Quem ganha é a mente e o coração. Quem perde é a barriga.

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