Para que a lipo não seja em vão
Esculpir nunca esteve tão na moda. A lipoaspiração está entre os procedimentos mais populares em território nacional. O fascínio pela chamada lipectomia reside no fato de que, com pequenas incisões, consegue-se retirar uma parcela de gordura subcutânea e, assim, definir as curvas dos pacientes. O cirurgião faz, em suma, furinhos na pele por onde coloca uma cânula e, aí, executa movimentos de vaivém para quebrar os adipócitos, unidades do corpo que armazenam gordura. Como o equipamento fica ligado a uma espécie de aspirador, os restos dessas células e a banha em si são chupados, o que desinfla os pneus. Entretanto, como o tecido adiposo da área operada foi arrasado, compostos gordurosos provenientes da alimentação não podem fixar residência ali. Então, buscam moradia nas profundezas do abdômen, onde passam a formar a gordura visceral, aquela que, além de deixar a barriga inchada e dura, produz substâncias inflamatórias em maior escala. Uma pesquisa realizada na Universidade de São Paulo (USP), com 36 mulheres que tiveram excessos do abdômen sugados, traz informações concretas sobre consequências deletérias da lipo. Após aproximadamente 60 dias, metade das voluntárias começou a se exercitar, enquanto a outra permaneceu inativa. Conclusão: as sedentárias, seis meses depois de investir na operação, haviam reconquistado boa parte da gordura perdida, pois quando ocorre uma retirada súbita dos estoques de energia, o organismo lança mão de mecanismos para repô-los depressa. Notou-se, por exemplo, uma queda de gasto calórico de repouso das participantes da pesquisa, ou seja, o ritmo do metabolismo diminui, contribuindo para que abusos à mesa acarretem ganho de peso. No final do estudo da USP, as sedentárias possuíam mais gordura visceral do que antes da cirurgia.
A promessa de conquistar uma barriga definida sem sair do sofá nem cuidar da alimentação sempre atrai as pessoas. Infelizmente, os especialistas são unânimes em afirmar que nem a lipo nem qualquer outro método têm a capacidade de criar tamanha obra de arte na ausência de hábitos saudáveis. Mas veja que interessante: as mulheres examinadas na pesquisa da USP que passaram a malhar depois de entrar na faca não voltaram a ganhar gordura corporal. Pelo contrário, elas enxugaram ainda mais as medidas. E melhor: aquele acúmulo na região visceral observado entre as inativas não deu as caras nessa turma. Isso, claro, tem a ver com o aumento no gasto calórico durante o treino. Mas não é só isso. Entre outras vantagens, uma musculatura exigida com frequência guarda moléculas de gordura no interior de suas fibras para utilizá-las como substrato energético no futuro. Assim, elas não enchem os adipócitos situados entre os órgãos, o que implica menos inflamação. O sistema cardiovascular e o resto do organismo agradecem.
Contudo, não dá para deixar a sala cirúrgica, calçar um tênis e já sair correndo pelas imediações do hospital. Em especial antes de tirar os pontos, o que demora cerca de 15 a 20 dias, o paciente só pode andar um pouquinho. Na sequência liberam-se práticas leves e sem carga. Musculação geralmente é contraindicada nesse período. Apenas na sexta semana de recuperação é possível intensificar a movimentação, até por isso as mulheres avaliadas na USP iniciaram seus treinos dois meses após o procedimento. E esse período é crucial, pois é aí que várias pessoas voltam a engordar. Quanto à quantidade de exercícios, não se sabe ao certo qual o protocolo ideal para aplacar os efeitos adversos da lipoaspiração. Vale conversar com profissionais de saúde e de educação física para descobrir a frequência cardíaca perfeita caso a caso.

| Tweet |