Dia das Mães: quando os filhos crescem, o cuidado muda

Lisiane Mossmann
O relógio da sala segue marcando as horas, mas a mulher que acompanha esse tempo já não é a mesma. Houve o período em que quase não se escutava o tique-taque, abafado pelo barulho da casa, entre mochilas, horários de escola, consultas, refeições, bilhetes, roupas para lavar e urgências que pareciam não esperar. Depois vieram as portas fechadas, as conversas atravessadas pelo corredor, a música no quarto ao lado e a vigília silenciosa até ouvir a chave girar na fechadura.
Quando os filhos crescem, a casa muda de ritmo. Em alguns lares, eles saem. Em outros, permanecem. Há ainda os que voltam depois de uma experiência fora. O que nem sempre muda é a centralidade do cuidado na vida das mães. Ele deixa de estar concentrado na criação cotidiana e passa a assumir outras formas: orientação, presença, suporte financeiro, convivência, atenção aos pais que envelhecem e, em muitos casos, retomada de projetos pessoais.
A maternidade também recomeça aos 54 anos
No Rio Grande do Sul, essa transição ganha um contorno social mais amplo. As projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um Estado com menos nascimentos, famílias menores e população mais envelhecida. Em 2000, o RS tinha 2,66 milhões de crianças e adolescentes de até 14 anos e 1,08 milhão de pessoas com 60 anos ou mais. Em 2026, a relação se inverte: são 1,94 milhão de crianças e adolescentes e 2,44 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.
A projeção para 2070 aprofunda esse movimento. O IBGE estima que o Estado terá 1,05 milhão de pessoas de até 14 anos e 3,55 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Na prática, o Rio Grande do Sul caminha para uma estrutura familiar em que há menos filhos, mais longevidade e mais anos de convivência entre diferentes gerações.
A queda dos nascimentos ajuda a explicar essa mudança. Em 2000, o Estado registrava 179,1 mil nascimentos. Em 2026, a projeção é de 111,8 mil. Para 2070, o número estimado cai para 65,8 mil. A taxa de fecundidade total também segue abaixo do nível de reposição: era de 2,12 filhos por mulher em 2000, passa para 1,44 em 2026 e deve ficar em 1,49 em 2070.
Novas relações familiares
Para Márcio Mitsuo Minamiguchi, gerente de Estudos e Análises da Dinâmica Demográfica do IBGE, o envelhecimento da população não muda apenas o tamanho dos grupos etários. Ele também altera as relações familiares. As gerações que hoje começam a demandar mais cuidado já tiveram menos filhos do que seus pais e avós. Com isso, a rede familiar disponível para dividir responsabilidades fica menor. Essa pressão sobre a rede de apoio é confirmada pelos números: a faixa da população entre 15 e 59 anos, que geralmente sustenta a dinâmica do cuidado, deve encolher de 7,3 milhões em 2026 para apenas 4,8 milhões em 2070 no Rio Grande do Sul.
Esse cenário desloca a leitura da maternidade para além da imagem associada apenas aos filhos pequenos. Em um Estado mais envelhecido, ser mãe também passa a atravessar outras fases da vida: a convivência com filhos adultos, a chegada dos netos, o cuidado com pais idosos, a reorganização da casa e a pergunta sobre o que ainda pode ser feito por si mesma depois de tantos anos dedicados à família.
Para a psicóloga Maria Isabel Wendling, professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), essa etapa faz parte do ciclo vital familiar. A relação deixa de ser a de uma mãe com uma criança ou adolescente e passa a ser a de uma adulta diante de outro adulto. A mudança pode envolver orgulho pelos filhos crescidos, saudade da rotina anterior e necessidade de olhar novamente para a própria trajetória.
“É uma fase de muitos desafios, de muitas reflexões sobre esse crescer. O crescer do filho faz com que essa mulher volte a pensar também mais em si”, afirma Maria Isabel. Segundo ela, a maternidade se transforma ao longo do tempo, e a mulher precisa se reconhecer também em outros papéis: profissional, filha, amiga, companheira, estudante, avó ou cuidadora.
A psicóloga Adriana Wagner, doutora em Psicologia e terapeuta de família e casais, observa que essa transição não ocorre da mesma forma para todas. O impacto depende da história de cada mulher, dos vínculos familiares, da rede de apoio e dos papéis construídos ao longo da vida.
Para algumas, a autonomia dos filhos abre espaço para novos projetos. Para outras, especialmente quando a identidade esteve muito apoiada na maternagem cotidiana, a saída de casa pode provocar sensação de vazio. Adriana define esse momento como uma crise evolutiva vital, marcada tanto por risco quanto por oportunidade. O risco está em a mulher permanecer presa a uma rotina que já não corresponde à nova fase familiar. A oportunidade está na possibilidade de reconstruir desejos, vínculos e formas de participação no mundo.
A transformação, porém, não ocorre em um cenário leve para todas. Mesmo quando os filhos já são adultos, muitas mães seguem responsáveis por orientar, acolher e organizar demandas familiares. Ao mesmo tempo, passam a lidar com pais que envelhecem, adoecem ou perdem autonomia. É quando a mãe de filhos adultos volta a se descobrir filha diante de pais que também passam a precisar de presença, decisões e cuidado.
Nesse novo retrato, o Dia das Mães deixa de ser apenas uma data sobre filhos pequenos, almoço em família e lembranças afetivas. Ele também revela um Estado em que as mães vivem mais, têm menos filhos, convivem por mais tempo com diferentes gerações e seguem ocupando, muitas vezes, o centro silencioso das redes de cuidado.
Fonte: Correio do Povo
Postado: Clecio Marcos Bender Ruver| Tweet |