Hist贸ria de Hoje: Rejane e o bolicho do Teobaldo

A Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social de Crissiumal, através do CRAS, segue desenvolvendo o projeto de Museologia para Idosos, estimulando entre os participantes, o resgate e a valorização de suas histórias familiares, a doação de objetos, documentos e fotos históricas para o acervo do museu municipal.
Iniciada em fevereiro de 2023, esta atividade tem um significativo propósito, que é compilar histórias passadas dos participantes e reunir as mesmas em uma coletânea que está sendo publicada aqui, no Guia Crissiumal.
Na edição dessa semana, a história infantil de Rejane Nass:
Rejane e o bolicho do Teobaldo
Este é um conto sobre a infância da Rejane e o Bolicho do pai dela, o Teobaldo Ernesto Nass. Rejane é a quarta dos 7 filhos de Anilda e Teobaldo. Todos cresceram com os aromas das especiarias (pimenta, cravo, canela) que tomavam conta do ar quando a túlia era aberta. Também era da túlia que saiam, a granel, os grãos de feijão, arroz, as farinhas de milho e de trigo e o açúcar.
Teobaldo e Anilda iniciaram o Comércio Nass em 1958. Nele, vendiam de tudo: tecidos, roupas, móveis, gás, alimentos, medicamentos, materiais de construção e até animais. Em tempos de tecnologia escassa, os preços eram registrados a lápis em um livro AZ, a soda chegava em tambores de 200kg, trazida pela Transportadora Tresmaiense e era ensacada pelos filhos do Teobaldo, que protegiam os braços com vinagre. Naquele tempo, a pequena Rejane assistia as carroças sendo carregadas com grandes fardos de mantimentos; eram os ranchos anuais que seriam pagos com a colheita, a safra, ou ainda, trocados por porcos, galinhas, ovos e nata.
Uma das grandes vantagens de ser filha de comerciante eram os constantes convites para festas. A família Nass sempre estava presente nos casamentos, afinal, toda a louça usada era emprestada do Comércio Nass. Em alguns finais de semana, havia casamentos no sábado e no domingo, festas que duravam o dia todo. As louças iam em caixas e, para a Rejane e seus 6 irmãos, tudo aquilo era uma grande festa. E era mesmo! De caminhão, cedinho, com a louça e outros apetrechos, lá iam eles para mais uma festividade. Mas nem só com casamentos a família Nass se divertia; o caminhão deles também servia de transporte para as reuniões dançantes, bailes e jogos de futebol; era tipo um “Uber coletivo” da época.
Na década de 60, aconteceu a inauguração da Igreja Evangélica Trindade, toda a quadra onde a igreja foi construída estava ainda em terra vermelha. Naquela época, as únicas edificações eram mesmo o novíssimo e reluzente prédio da igreja, a caixa d’água e a igrejinha antiga, feita em madeira. Mais uma vez, o caminhão do Teobaldo serviu de transporte para o povo de Vista Nova. Sem dúvida, um grande evento. A comunidade estava entusiasmada, dada a importância do evento; Anilda vestiu as melhores roupas em seus sete filhos, que desconsideraram os conselhos da mãe e aproveitaram o barro que circundava a obra para brincar. Era tanto barro que, após a festividade, a igreja teve que ser limpa em um grande mutirão.
Aos 10 anos, Rejane já tinha uma agenda cheia: de manhã ia para a escola e à tarde atendia no Bolicho. Nas horas de menor movimento, praticava a tabuada em folhas de papel de embrulho e depois o pai corrigia. Mais tarde, passou a frequentar a escola no turno da noite, pois, durante o dia, os filhos participavam das descarregas de tijolos, telhas, areia etc. Com 12 anos, ela começou a participar das safras de soja. De caminhonete, saíam cedo, assistindo à despedida da lua e ao nascimento do sol, recolhiam as sacas cheias de grãos e depois as abriam para derramar a soja no caminhão grande.
No final do verão, acontecia a vindima e vinificação. Eram produzidas de 6 a 8 mil garrafas de vinho ao ano. Na sexta-feira, Teobaldo organizava a colheita dos cachos, depois os frutos eram separados dos cachos, e no final de semana Rejane e suas manas, já adolescentes, perdiam os bailes do final do verão porque não queriam comparecer com as mãos roxas pela lida com as uvas. Os barris de madeira eram lavados com água fervida e folhas de pêssego, e por fora eram pintados com uma mistura de cimento e leite em uma lida incansável e familiar.
Memórias de uma casa cheia, de uma infância com muito trabalho e de uma juventude com mais trabalho ainda, com capinas de terreno, cargas e descargas, mas também com festividades sinceras e brincadeiras inocentes. Nesse tempo, cada evento era recebido com muita euforia e cada sonho era sonhado com muita inocência. Hoje, resta um mar de lembranças repletas de carinho, orgulho e saudade.

Legenda das Fotos: Rejane, quando criança (1962) na foto dfo topo e a família Nass (1993) na foto acima.
Postado: Clecio Marcos Bender Ruver| Tweet |