Crissiumalenses estiveram em Santa Rosa

Os impactos socioambientais inerentes à construção das hidrelétricas Garabi e Panambi, no Rio Uruguai, foram debatidos na manhã desta sexta-feira (04/10), em Santa Rosa, em atividade organizada pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES-RS). No auditório da Unijuí, o evento reuniu mais de 600 pessoas pertencentes às comunidades das regiões Fronteira Noroeste e Missões, que serão atingidas pelas barragens. Além de representantes do Governo do Estado, participaram dirigentes da Eletrobrás, empresa responsável pelo complexo hidrelétrico, prefeitos, vereadores, deputados, lideranças regionais e representantes de comunidades argentinas.
Como encaminhamento do Diálogos CDES-RS, será feito um ciclo de reuniões, até o final de novembro, em cada um dos municípios diretamente atingidos pelo empreendimento. O objetivo é envolver as comunidades locais, compartilhar informações e consultá-las acerca de suas posições em relação à construção do complexo hidrelétrico. “Queremos fazer um diálogo direto com as comunidades que serão afetadas pelo projeto da Eletrobrás. Estamos aqui para estabelecer uma relação formal de interlocução entre a empresa e as pessoas que serão atingidas”, explicou o secretário-executivo do CDES-RS, Marcelo Danéris.
As demandas, preocupações e contribuições manifestadas pelos participantes serão levadas ao governador Tarso Genro. “Essa é uma oportunidade histórica para tratarmos com responsabilidade essa questão. Tendo continuidade ou não, o governo estará envolvido nesse processo para garantir os direitos das comunidades”, afirmou Danéris. Ele explicou que, no início do ano, o governo gaúcho formou um Grupo de Trabalho envolvendo representações de 17 secretarias de governo para acompanhar o processo de estudo e construção das barragens, buscar minimizar impactos ambientais e potencializar os benefícios econômicos e sociais das atividades relacionadas à construção.
Estudos de viabilidade
O diretor de Geração da Eletrobrás, Valter Cardeal, apresentou o projeto para as comunidades reunidas no evento. “Até agora, o que há são apenas estudos. Estamos tratando de modo democrático esta questão, pois o Brasil e a Argentina precisam desses investimentos para sua eficiência energética. Nada se produz sem energia”, defendeu. Segundo ele, a matriz energética brasileira é uma das mais limpas do mundo em função de suas hidrelétricas, que utilizam fontes renováveis, ao contrário de usinas nucleares e termelétricas.
O projeto de construção do complexo hidrelétrico Garabi-Panambi está sendo realizado pela Eletrobrás juntamente com a empresa argentina Ebisa. Segundo a Eletrobrás, o empreendimento tem previsão de gerar 2.200 MW, energia que será igualmente dividida entre os dois países. O projeto terá um custo estimado de US$ 5,2 bilhões. Conforme estudos, a previsão é alagar áreas em 19 municípios nas regiões Noroeste e Missões e atingir mais de 10 mil pessoas.
Resistência
Da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Marco Antônio Trierveiler manifestou as principais preocupações relativas à construção das hidrelétricas. Segundo ele, são 90 mil hectares de terra fértil que poderão ser inundadas e cerca de 13 mil pessoas afetadas. “Já impedimos Garabi-Panambi uma vez e podemos impedir de novo”, exclamou, exigindo informações claras e transparência por parte da Eletrobrás.
Sobre a realização do Diálogos CDES acerca do tema, Marco Antônio Trierveiler parabenizou a iniciativa do Governo do Estado em reunir a empresa e as comunidades que deverão ser atingidas. “Se a Eletrobrás está aqui hoje, é por esforço das comunidades e do governo estadual. Elogiamos a postura do Governo do Estado em criar um GT. Nossa expectativa é que esse GT se posicione a favor das comunidades”, destacou. “O governo precisa ter firmeza, compreender a situação das comunidades e exigir informações verdadeiras da Eletrobrás”, completou.
Representante das comunidades de pescadoras e agricultoras, Tereza Pessoa criticou a construção das hidrelétricas. “Repudiamos as barragens porque elas acabam com nossa qualidade de vida, nos expulsam de nossas terras, desestruturam nossas famílias e cortam nossos laços de amizades. É muito fácil construir barragens em cima do sofrimento do povo”, argumentou. “O povo tem que ser protagonista e os atingidos na podem ser tratados apenas como empecilhos”.
O secretário de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo (SDR), Ivar Pavan, que foi um dos fundadores do MAB na década de 1980, disse que a comunidade tem que estar integrada e organizada para garantir seus direitos antes que a obra inicie. “Está na hora de exigirmos do setor elétrico uma nova política em relação à construção de barragens. A questão ambiental e a questão social devem fazer parte do projeto desde o seu início. Contem com o Governo do Estado nesse processo”, afirmou.
Mesa de diálogo
“Estamos tratando de um assunto que toca na alma e na vida da gente. Ao longo da história, todos os barramentos do rio Uruguai não contaram com o envolvimento do Governo do Estado. Estamos assumindo pela primeira vez esse compromisso e inaugurando uma nova relação de diálogo para tratar desse tema tão importante, principalmente para as comunidades que deverão ser atingidas”, afirmou a chefe-adjunta da Casa Civil, Mari Perusso.
“Se ficarmos repetindo um discurso fácil, totalmente favorável ou totalmente contrário à construção, não teremos condições de sentarmos em uma mesa de diálogo”, ponderou Mari Perusso. A chefe-adjunta afirmou ainda que será instituído um fórum permanente para tratar do tema, conforme decreto do governador, com a participação de movimentos sociais, entidades representativas, prefeituras, governo estadual, União e a Eletrobrás.
Participação Crissiumalense
Cerca de 40 crissiumalenses participaram da discussão em Santa Rosa, entre eles o Prefeito Municipal Walter Luiz Heck, o Secretário de Desenvolvimento Rural, Pesca e Meio Ambiente Nilson Welter e profissionais ligados ao meio ambiente. Moradores que serão atingidos pela construção das barragens, moradores da costa do Rio Uruguai também estiveram em Santa Rosa.
Fonte: CDES.RS / Guia Crissiumal
Foto: Governo do Estado do RS
Postado: Clécio Marcos Bender Ruver
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