Artigo de opinião escrito pelo Prof. Felipe Marcel Machado Costa

Hoje, 4 de agosto, é o dia de São João Maria Vianney — padre francês reprovado várias vezes no seminário por "incapacidade intelectual", que ainda assim fundou uma escola gratuita para órfãos e crianças abandonadas de sua paróquia, a mais pobre da França. Duzentos anos depois, escrevo isso como professor da rede pública, formado em Letras, pensando na ironia: esse padre "incapaz" alfabetizou, sozinho, mais gente do que todo o corpo técnico que assina a BNCC.
Em 1818, um padre francês chamado João Maria Vianney chegou a uma paróquia tão miserável que, nas palavras de seus biógrafos, "não havia pobres, só miseráveis". O homem mal sabia escrever direito em francês — havia aprendido latim de forma tardia e sofrida. Ainda assim, fundou uma escola, a Providence, para crianças órfãs e abandonadas da região. Sem diagnóstico de aprendizagem, sem plano de aula personalizado, sem formação em neurociência cognitiva. Só método, disciplina e catecismo repetido até grudar.
Método, disciplina e catecismo repetido até grudar. “Que horror!” — talvez brade o professor ou pedagogo de turno. Normal. Também aprendi a reagir deste modo na universidade — urrar contra a Verdade e falar com pompa sobre teorias educacionais vazias. É como se precisássemos morrer em nome de um laicismo burro; como se a laicidade fosse rompimento total e ideal entre religião e estado. Esquecemos que ela foi proposta por cristãos; pensada para que diferentes denominações convivam bem dentro do mesmo país, tornando possível, por exemplo, a Revolução Americana. Mas volto ao assunto do método.
O ensino tradicional é a referência de escolarização metódica, ao passo que a proposta pedagógica vigente no nosso país é o abandono do método, claro e sequenciado, em nome de um experimentalismo que trocou disciplina por discurso, e sequência por sigla — BNCC, PCN, "protagonismo" — sem nunca entregar o que São João Maria Vianney entregava com giz, bondade e razão.
Duzentos anos depois de Providence, o Brasil gasta bilhões em reformas curriculares, terminologias importadas e formações continuadas. A cada 4 anos mudam as diretrizes do ensino, muda-se a visão política sobre os fins da educação, mudam os governadores e os prefeitos — e seguimos mandando para o ENEM uma geração que, segundo os próprios dados oficiais, mal domina a interpretação de texto básica. Talvez seja hora de perguntar, sem cerimônia: será que o Cura d'Ars sabia de alguma coisa que esquecemos?
Arrisco dizer: esquecemos que a grama é verde, como avisara G.K. Chesterton. Esquecemos e desprezamos os grandes livros da humanidade, não cultivamos admiração pelos grandes homens da história. Esquecemos de celebrar o 22 de abril. Não temos apreço pela grande história e construção da nossa nação e até já aceitamos o “ensino” de que vivemos em terra “roubada”. Esquecemos de que o estado é servo da comunidade e não o contrátrio. De que a comunidade escolar é formada por uma população cristã, no Brasil. Esquecemos a centralidade da Família. Esquecemos das nossas origens e, atônitos com a imprestabilidade das gentes, clama-se por um milagre (sem Deus) em que os professores ensinam de tudo a quem não quer aprender nada — uma vez que o ensino passou a ser universal e público e obrigatório.
Esquecemos que existe tradição no ensino, na cultura e na sociedade — e a rejeitamos com um certo orgulho “hippie”. Como disse Hannah Arendt, “a crise da educação é uma crise de religião, é uma crise de autoridade, é uma crise de tradição”. A educação não é possível na ignorância das referências morais que unem a sociedade.
Ninguém nunca fez um documentário emocionante sobre a Ratio Studiorum, o manual jesuítico de 1599 que padronizava currículo, seriação e avaliação. Não tem drama, não tem "protagonismo do aluno", não tem palavra bonita de congresso de educação. Tem sequência, repetição e cobrança. Sei que é quase proibido um professor público lembrar disso, mas se repetia até mesmo de ano! E funcionou tão bem que formou, ao longo de séculos, de Descartes a Voltaire — gente que depois passou a vida inteira atacando a própria Igreja que os alfabetizou. A ironia é deliciosa: até os maiores críticos da tradição escolástica foram produto dela. Será que de fato ela obscurece a capacidade crítica dos alunos?
Enquanto isso, o Sistema Preventivo de Dom Bosco — "razão, religião e bondade", aplicado a moleques de rua da Turim industrial do século XIX, gente que hoje qualquer relatório social chamaria de "população em vulnerabilidade extrema" — segue funcionando na rede salesiana espalhada pelo mundo todo, sem que ninguém precise reinventar a roda a cada troca de secretário de educação.
Não me entenda mal, leitor. Os exemplos citados até aqui são todos católicos, sim. Embora minha abordagem seja sobre a decadência educacional brasileira, é impossível dissociar a crise educacional do abandono do dito “retrógrado” Método Tradicional de ensino, recebido graças ao catolicismo. Veja que “absurdo”: a centralidade na figura docente, o domínio da mnemônica e da prática reiterada, o rigor na verificação de patamares, o saber de cunho universalista, além da reverência ao silêncio e à submissão disciplinar.
O próprio Project Follow Through — o maior experimento educacional já feito pelo governo americano, com mais de 300 mil crianças — enterrou, já em 1977, a fantasia de que o método aberto e "centrado no aluno" bate o método estruturado de ensino. O modelo de Instrução Direta ganhou disparado. Mas o que aconteceu com esse resultado? Foi engavetado. Porque não combinava com a narrativa que a academia da educação já tinha decidido defender.
Método aberto, no jargão da educação atual, é a ideia de que a criança deve "construir" sozinha o próprio conhecimento, com o professor fazendo o papel de facilitador, não de quem ensina diretamente. Na prática: é largar a criança para descobrir sozinha o que geração nenhuma antes dela precisou descobrir sozinha — como ler, como somar, como escrever — trocando aula explicada, sequência fixa e repetição por "experiência", "vivência" e "protagonismo do aluno". O adulto, que antes ensinava, agora só observa e estimula.
Aqui vai uma provocação que incomoda: boa parte do que hoje é vendido como "metodologia ativa, inovadora" — ensino sequenciado, prática deliberada, feedback imediato, repetição espaçada — é, na prática, uma redescoberta envergonhada daquilo que os jesuítas, os lassalistas e os maristas já faziam há séculos, só que sem crucifixo na parede e com nome em inglês para parecer moderno. Chame de "instrução direta" numa TED talk e vira revolução pedagógica. Chame de "decoreba do padre" e vira atraso.
Mas e o elitismo? E os avanços sociais das propostas modernas, que implementam políticas de inclusão e igualitarismos? Ok. Este é o ponto que ninguém quer discutir em sala de professor: as redes que hoje soam "conservadoras" ou "ultrapassadas" — La Salle, Champagnat, Calasanz, Dom Bosco — foram, cada uma no seu tempo, o equivalente a uma revolução de inclusão social. José de Calasanz abriu, em 1597, a primeira escola popular gratuita da Europa moderna. La Salle tirou o ensino do latim erudito e o trouxe para o vernáculo, pensando explicitamente nos filhos de artesãos e camponeses. Champagnat organizou uma rede inteira de ensino numa França rural onde a maioria das crianças nem pisava em escola. Nenhum desses homens escreveu um manifesto sobre equidade. Eles simplesmente foram e fizeram — com método, disciplina e sequência clara — o que hoje se discute em fórum internacional há trinta anos sem sair do lugar.
E o resultado, sim, apareceu: santos, linguistas, cientistas, prefeitos, senadores e Nobel de governança saíram dessas redes — gente que começou, em muitos casos, tão pobre quanto qualquer aluno de escola pública brasileira hoje.
Se o método clássico é tão retrógrado assim, por que ele segue formando gente notável, e por que, quando pesquisadores americanos foram medir com rigor estatístico — não por anedota, mas ajustando por origem social — encontraram que o efeito positivo da educação de tradição católica é maior justamente entre os alunos mais pobres, os que mais precisam de estrutura porque não têm em casa? Isso não é conversa de nostálgico “medieval”. É achado replicado em revista séria de economia.
Talvez o problema não seja o método clássico ser ultrapassado. Talvez o problema seja que ele exige do adulto — professor, gestor, poder público — uma coisa que nenhuma metodologia ativa consegue empacotar em slide de formação: disciplina, consistência e a humildade de admitir que a criança, sozinha, não vai "construir o próprio conhecimento" sem alguém que saiba exatamente o que ensinar, em que ordem, e cobre isso todos os dias.
São João Maria Vianney não tinha Google, IA ou PowerPoint. Tinha método. E funcionava.
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Crissiumal-RS, 04 de agosto de 2026.
Artigo de opinião escrito pelo Prof. Felipe Marcel Machado Costa.
Postado: Clecio Marcos Bender Ruver| Tweet |