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Cultura - 04/03/2014 - Reportagem do site Aquarela Magazine sobre a estreia da atriz crissiumalense Lesley Bernardi nos palcos de Montreal


Nos palcos da vida, nos palcos do mundo

A atriz gaúcha Lesley Leichtweis Bernardi (na foto acima, a segunda da direita para a esquerda) já se apresentou nos palcos na Itália, na Alemanha, na República Tcheca (*), na Noruega e no Brasil. Mas agora ela pode dizer que se atuou em três continentes diferentes. Atualmente residente em Montreal, na semana passada a Lesley se apresentou na peça 'The Bald Soprano', ou 'La Cantatrice Chauve'. Esta montagem é basicamente bilíngue, apesar de conter mais diálogos em inglês, muitos das falas se deram na língua de Molière, ou francês.

 

Talvez alguns brasileiros não saibam, mas muitos dos eventos culturais do lado anglófono de Montreal se dão em inglês e em francês também. O mesmo não ocorre quando o evento pertence ao lado francófono, onde geralmente o francês impera absoluto (nada a ver com o lado geográfico da cidade, apenas linguístico).

 

Esta montagem de The Bald Soprano pertence à escola do teatro do absurdo, onde as situações parecem reais mas que inesperadamente podem se transformar em algo mais simbólico. Por exemplo, para mostrar uma contradição: um dos atores grita uma frase para exprimir o que o seu personagem sente ao ver o outro, mas em seguida ele diz uma segunda frase de maneira muito amistosa e simpática, como se não tivesse gritado segundos antes; as mudanças na iluminação durante a fala dos atores e o áudio bem escolhido ajudam nesta ambientação dos humores.

 

Para quem pouco ou nunca viu uma peça de teatro antes, assitir este tipo de montagem pode ser uma ótima experiência pelo senso de humor e pela interação com o público presente - nesta montagem de The Bald Soprano os atores buscaram dois 'voluntários' no meio do público - um desses 'voluntários' era uma brasileira. O resultado do trabalho do grupo responsável pela montagem de The Bald Soprano é muito interessante e vale a pena assistir. O diretor trabalhou muito bem na harmonização de tudo, desde a escolha dos atores que estavam muito à vontade com os seus personagens, passando pelo texto, muito bem pensado, e chegando enfim à ambientação das cenas, a entonação dos atores, um cenário bastante enxuto mas completo, todos esses detalhes foram decisivos para a boa performance do grupo. Facilmente percebe-se o empenho profissional na construção desta montagem.

 

Uma boa parte do público presente eram na verdade brasileiras que foram prestigiar a Lesley, e no final deram um abraço de grupo na Lesley, que depois me disse que os outros atores ficaram um pouco tristes por não terem tido a mesma atenção do público. Durante a peça podia-se ouvir o clique de uma câmera com alguma frequência, ainda mais quando a Lesley surgia no palco. Claro que era uma brasileira tirando foto. Mais ou menos como fazem quando estão diante de uma estrela. E de certa forma era sim uma estrela, pois a Lesley faz parte da comunidade de brasileiros que residem no Quebec, a maioria em Montreal, algo entre 8 a 12 mil pessoas, entre estudantes, residentes e trabalhadores temporários. Quantos atores brasileiros residem em Montreal? 

 

Talvez alguém possa dizer que os músicos brasileiros também são estrelas, e que temos alguns deles vivendo em Montreal. Sim, eu concordo, acho que fazem um excelente trabalho e merecem o estrelato. Posso citar o talento de Isaac Neto, capaz de criar composições muito ricas e com ritmo e melodia originais e populares. Mas os músicos brasileiros cantam em português, e quando cantam em francês, geralmente é uma canção com ritmo brasileiro.

 

A estréia da Lesley é sem dúvida uma conquista, pois além da disciplina corporal necessária para se expressar bem com a linguagem corporal, um ator deve falar bem o texto. E convenhamos que não é qualquer ator que consegue se expressar bem em outros idiomas. É este o desafio que a Lesley aceitou e venceu: apresentar-se no palco em um outro idioma, para um público que não fala português. Como dizemos em Montreal, 'kudos' para ela! Falar o idioma apenas como uma forma de comunicação é diferente, pois o ator deve aplicar diferentes tons de voz, nuances que não somos obrigados a usar na fala do dia a dia.

 

Nos palcos ao redor do mundo ela realiza seus sonhos e vive a fantasia do público.

 

Veja abaixo a entrevista com a Crissiumalense.

 

Como você se juntou a este grupo?

Eu vi o anúncio de seleção de elenco e como gosto do autor resolvi participar e enviei meu CV e recebi confirmação para a audição. Houve uma pré-seleção 32 atores fizeram a audição, não sei quantos os curriculum recebidos.

 

Qual era o mote desta peça? qual era a história? Você pode dizer alguma coisa sobre os personagens e o conflito da história?

Ionesco escreveu o texto a Cantora Careca baseado em um manual de ensino de linguas. Sr e Sra Smith que tem uma vida inglesa bastante monotona quando recebem a visita dos Sr e Sra Martin que chegam atrasados e nem lembram que se conhecem, Mary uma empregada intrometida e o chefe dos bombeiros, além de um relógio claro, também participam deste noite na casa dos Smith. Tudo é apenas uma desculpa. O próprio título é aleatório, não estabelecendo nenhuma relação com o conteúdo da peça. O original foi escrito em francês, a versão bilingue foi criada especialmente para a realidade de Montreal. A obra é considerada um marco do teatro do absurdo e é a primeira de Ionesco.

 

Por que você recitou um texto em português? Tinha alguma coisa a ver com os brasileiros (ou melhor dizendo, brasileiras) presentes na platéia, ou fizeram o texto assim mesmo porque você é brasileira?

O texto foi alterado especialmente em homenagem a platéia, que prestigiou o espetáculo, o diretor me perguntou se eu gostaria de fazer algo em português e eu claro adorei. Durante as improvisações algumas vezes usei português, pois os outros atores não falavam a lingua e precisavam tentar adivinhar o sentido, algumas coisas divertidas vistas em cena surgiram a partir disto inclusive.

 

Que coisas divertidas foram estas? Pode citar uma delas?

Em um dos exercícios de improvisao cada ator falava uma frase para contar uma história, e só eu podia usar português, mas eu entendia as outras linguas faladas e tinha aquele clima sera que continuei a história com algum senso, o que as vezes era real as vezes absolutamente não (mas eles nao tinham como saber) no final explicava o que havia dito.

 

A melhor de todas foi a cena da Mari em que os Smith fazem careta comigo, isto começou numa tentativa de eles me mimarem o meu texto (eu falando portugues) junto comigo, mas diferente do que aconteceria se eles soubessem as palavras, a cena precisava ficar perfeita pq nao havia como adivinhar uma palavra que eles nunca ouviram antes. O que na apresentação deixou todos perfeitamente sincronizados. Achei uma opção interessante do diretor, usar as diferenças para criar harmonia.

 

Como é a sua relação com os outros atores e atrizes do grupo?

Muito boa, os conheci durante a produção, nos ensaios e alguns cafés, são todos excelentes profissionais, tivemos pouco tempo para saber mais uns sobre a vida uns dos outros, os nossos dialogos eram quase sempre os textos da peça.

 

Os atores eram muito bons, o roteiro muito criativo, o ritmo estava ótimo. Como foi para você trabalhar com este grupo?

Sim, são atores muito bons, mas como citei antes, foi uma seleção difícil estes são os melhores entre os 32 pré-selecionados por curriculum e que apresentaram um monologo e fizeram entrevista com a companhia.

 

Como você compara com os grupos com os quais você trabalhou no Brasil e na Europa?

Eu trabalhei em várias produções pequenas e grandes no Brasil e na Europa antes. Posso afirmar que muda muito a criação de acordo com o tipo de texto trabalhado, se é um texto escrito como em “A Cantora Careca” , (os atores são selecionados em base no texto) e ou se é baseado em um diário como foi Avvákum (as falas são criadas durante improvisações de passagens da vida do autor) e ou uma história real dura e triste como em “La nave del ritorno” (é preciso trazer para a vida os personagens reais sem perder o cunho histórico), ou ainda quando um texto é criado especialmente para o elenco existente como em “Repulsa ao Nexo” (o elenco fazia improvisações sobre uma temática definida e o dramaturgo assistia e ia criando os dialogos) ou se teatro-dança como em “Rituais do Cotidiano” (onde pequenos movimentos repetidos na nossa rotina se tornam ponto de partida para um espetáculo).

 

Acredito que é mais importante a quantidade de tempo e dinheiro e a filosofia envolvida na produção do que o país onde está sendo feito, por exemplo em “Mirandolinae” eu fiquei 1 mês hospedada no hotel ao lado do teatro com ensaios das 8 às 20h (audição com 65 candidatas depois de mais de 700 CVs recebidos). Era uma opção da diretora que nós ficassemos isoladas de tudo em imersão. Uma superprodução poderia ser quase do mesmo modo aqui e ou no Brasil.

 

O estilo do diretor também interfere na forma de criação e resultado final da peça. Os diretores italianos em geral são mais autoritários, a maioria dos brasileiros é bem flexivel. Gosto de diretores que deixam livre a criaçao e que junto com o ator trabalham os detalhes o toque de arte, aprimoram as improvisações e limpam a cena. Anton Golikov é muito aberto as improvisações e sugestões dos atores e também criativo e detalhista.

 

Nestes tempos de estrada (5 paises), muitas vezes trabalhei com companhias que não conhecia antes, diferente do que aconteceria se eu estivesse sempre no mesmo local. Eu aprendi a ler sobre a companhia e os envolvidos antes de enviar meu curriculum.

 

Hoje me sinto no direito de escolher com quem e como trabalhar. Já dispensei convites quando considerei os envolvidos pouco sérios ou não profissionais, também não consigo trabalhar com coisas nas quais não acredito.

 

Qual será a sua próxima peça? Vai continuar no mesmo grupo?

Existe um grande interesse entre os atores, diretor e produtores de continuar apresentando “The bald soprano/La cantatrice chauve” em tourne e principalmente gostariamos de levar para os festivais internacionais, esta é uma versão única do clássico de Ionesco que somente possivel no ambiente favoravel ao intercultural que é Montreal. Acredito que as versões ao redor do mundo poderiam incluir algumas frases traduzidas para cada realidade, eu adoraria recitar a poesia da Mary em uma lingua diferente a cada apresentação.

 

Fonte: http://www.aquarelamagazine.com/artigos/editorial-1/nos-palcos-da-vida-nos-palcos-do-mundo/

Fotos de Jean-Michael Seminaro


 

Postado: Clécio Marcos Bender Ruver
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