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Texto de Opinião - 02/12/2016 - O que a natureza nos preserva


Autor: Felipe da Lúz, Biólogo e Mestrando em Ciências Ambientais pela Universidade de Passo Fundo

Na vida do brasileiro acordar cedo para um longo dia de trabalhos é um hábito frequente e rotineiro, as atividades diárias são exaustivas, e, em muitas ocasiões quando esta rotina é vivida por um longo período de tempo, deixamos de notar certas peculiaridades em nosso meio que possuem importância significativa ao bem estar pessoal. Certa manhã em um daqueles momentos ilusórios de ter mais cinco minutinhos para ficar na cama envolto pelo silêncio de um suave e refrescante alvorecer, ouço ao fundo uma melodia ritmada, com sons repetitivos, um “tilintar” de um conhecido cantor. Não caro leitor, não se trata de nenhum grande cantor de MPB ou um famoso artista sertanejo e tampouco a mais nova revelação do funk. É nada mais nada menos que um cantor nato, que muitos ouvem e poucos reconhecem, que já foi o astro principal de certa música de outrora. Sim senhoras e senhores me refiro ao “sabiá-laranjeira” Turdus rufiventris que nos agracia matinalmente com sua suave melodia, a  simplicidade e perfeição do que a natureza tem de melhor a nos oferecer.

 

Sinto-me compadecido com alguns amigos que vivem hoje em grandes metrópoles e não são diariamente agraciados com esse majestoso prazer em ouvir tão complexa melodia e me pergunto: será que é apenas o canto de uma ave de coloração pouco chamativa que estamos deixando de ouvir? Afinal são os agentes naturais que permitem estarmos aqui hoje, é a eles que devemos a manutenção do nosso ecossistema. Será que somos capazes de perceber e entender o quão fundamental são as espécies de todos os cinco reinos e a importância da preservação, conservação e uso sustentável dos recursos naturais.

 

No Brasil a constituição federal de 1988 em seu artigo 225 assegura a todos um meio ambiente ecologicamente equilibrado e impõe ao poder público o dever de defendê-lo e preservá-lo. Contudo apenas no ano 2000 que a lei do SNUC ( Sistema Nacional de Unidades de Conservação) foi criada e dentro dela doze categorias diferentes de unidades de conservação. Tais unidades têm como objetivo principal proteger a biodiversidade, por meio da manutenção dos recursos genéticos, hídricos e edáficos, além de proteger paisagens naturais e promover a restauração de ecossistemas degradados.  

 

Essas unidades foram divididas em dois grupos com características específicas. O primeiro deles é o grupo de Proteção Integral que engloba cinco categorias, são elas: Estação Ecológica, Reserva Biológica, Parque Nacional, Monumento Natural e Refugio da Vida Silvestre. que tem como objetivo básico preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais. O segundo se refere ao grupo de Uso Sustentável que abrange as sete categorias restantes: Áreas de Proteção Ambiental , Áreas de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista, Reserva de Fauna e Reservas Particular do Patrimônio Natural com o objetivo de compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais. Esta lei foi fundamental para estabelecer as áreas protegidas e fornecer amparo legal para que se pudesse exigir judicialmente uma atenção maior do poder público para a preservação dos habitats.

 

A  conservação ambiental e os inúmeros discursos de preservação das áreas protegidas não se trata de nenhum “papo de ecochato”, a preocupação com as  questões ambientais é fundamental e de extrema importância para a manutenção da vida como a conhecemos hoje. Na correria do dia a dia, em tempos conturbados de crise onde temos que lutar pela seguridade econômica de nossas famílias, não conseguimos ter alguns minutinhos para perceber o quão importante é a diversidade biológica que está em nossa volta, não nos permitimos  sequer aproveitar o canto dos pássaros e a beleza da floração das árvores, chegando a um  ponto em que é preciso se perguntar: o que é prioridade? 

 

Para muitos de vocês caros leitores, talvez nesse momento, a biodiversidade e os recursos naturais podem não ser prioridade, mas será que para seus netos e bisnetos não será? Eles não merecem o direito de ouvir o sabiá pela manhã? O que mais me incomoda é pensar que se os nossos descendentes realmente quiserem desfrutar de tudo isso,  talvez estejamos  falhando quando não tratamos as áreas protegidas como prioridade. O que me motiva é saber que se estivermos realmente falhando, ainda há tempo de buscar recursos para melhorar.

 

Autor: Felipe da Lúz, Biólogo e  Mestrando em Ciências Ambientais pela Universidade de Passo Fundo

Postado: Clécio Marcos Bender Ruver
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